Como A Crise de 2008 Aconteceu
- Rodrigo Saad
- Feb 18
- 7 min read
Capítulo 1. O Instrumento da Crise: Mortgage Backed Securities (MBS)
Imagine que você é um banqueiro. Ao emprestar dinheiro para que alguém realize o sonho da casa própria, você certamente seria rigoroso: faria uma análise de crédito minuciosa, verificaria se a renda é compatível com o imóvel, se a pessoa é honesta e se já possui outras dívidas, correto? Ao final desse processo, com tudo verificado e um bom histórico em mãos, você faria o empréstimo para ser pago em 30 anos.
Mas, cá entre nós: você quer mesmo carregar o risco desse empréstimo por três décadas para ganhar uma mixaria de juros por mês? Provavelmente não.
Eis que lhe apresento um visionário chamado Lewis Ranieri. Trabalhando no banco Salomon Brothers em 1977, ele teve uma ideia brilhante:
“E se empacotássemos milhares desses empréstimos de alta qualidade em um produto chamado Mortgage-Backed Securities (MBS) e os vendêssemos para quem topasse esperar os 30 anos em troca de um rendimento um pouco maior que a taxa do Tesouro Americano — cobrando, é claro, uma bela comissão para fazer essa ponte?”
Ótimo, mas quem teria esse perfil de investimento? Você deve estar se perguntando... e eu lhe respondo: OS FUNDOS DE PENSÃO.
Capítulo 2. Criando Um Monstro
No princípio, o MBS era um bom produto, extremamente sólido, recheado de empréstimos confiáveis — ou, como chamamos no mercado, Triplo A (AAA). De 1977 até 2003, os bancos emitiram 842 BILHÕES DE DÓLARES em MBS (AAA) e 3 TRILHÕES DE DÓLARES em outros produtos estruturados similares, recebendo em taxas de gestão e securitização mais de 100 BILHÕES DE DÓLARES.
Um ótimo negócio, não é mesmo? Até porque os bancos não tomavam nenhum risco por esse crédito; esse risco ficava todo para os FUNDOS DE PENSÃO (mas não conte para ninguém quem te falou isso).
Capítulo 3. A Batata Começa a Assar
Bom, até aqui era tudo céu de brigadeiro. Os bancos de investimento vendiam bons produtos e ganhavam suas taxas; os bancos comerciais que faziam os empréstimos recebiam seu dinheiro rápido e com lucro; os fundos de pensão batiam suas metas com um produto seguro e rentável; e as agências de risco recebiam para avaliar a qualidade dos MBS.
Mas espere um pouco... agências de risco? Você nunca as citou? De onde elas vieram?
Perfeito, hora de te apresentar as melhores amigas dos bancos: as AGÊNCIAS DE RISCO. O trabalho delas era bem simples: quando um banco empacotava esses empréstimos em um MBS, as agências eram PAGAS PELOS PRÓPRIOS BANCOS para avaliar o risco de crédito do produto.
Se a qualidade fosse ruim, recebia uma nota baixa (como B). Mas, caso fosse boa, recebia o selo AAA. E por que esse selo era tão importante? Porque o AAA era a única graduação de risco que permitia aos gigantescos FUNDOS DE PENSÃO comprar esse ativo.
Capítulo 4. A Batata Está Ficando MUITO QUENTE
Após décadas dessa máquina rodando, os bancos começaram a perceber que havia cada vez menos empréstimos de qualidade para serem feitos. Porém, quem quer renunciar ao seu bônus gordo no final do ano? Ninguém, né?
Então, os bancos comerciais começaram a fazer empréstimos cada vez mais arriscados. Afinal de contas, os bancos de investimento compravam esses empréstimos em apenas três dias para empacotá-los em um MBS, e o problema deixava de ser deles.
Mas não eram só os banqueiros; as agências de risco também não queriam abrir mão de suas receitas. Caso elas analisassem os MBS e dessem qualquer nota que não fosse AAA, os bancos de investimento simplesmente "desciam a rua" e batiam na porta da concorrência, que lhes daria a nota máxima sem fazer perguntas difíceis. Era o selo necessário para empurrar esses títulos para os FUNDOS DE PENSÃO.
Durante esse processo, o volume de MBS com selo AAA saltou de 842 bilhões (acumulados entre 1977 e 2003) para assustadores 2,4 TRILHÕES DE DÓLARES EM 2008.
O pulo do gato? Cerca de 80% do que compunha esses títulos era considerado subprime — ou seja, empréstimos de altíssimo risco.
Mas quem se importa? O risco não era dos bancos e nem das agências de risco...
Capítulo 5. Jogaram Gasolina na Batata Quente
Bom, agora você deve estar pensando: como é possível piorar? Muito simples. Por que não colocarmos alavancagem no sistema?
Os bancos acharam que apenas emprestar de 5 a 8 vezes o dinheiro que eles tinham era devagar demais, então resolveram emprestar 30 VEZES o próprio patrimônio... Ou seja, caso apenas 3,3% dos empréstimos não fossem honrados, os bancos QUEBRARIAM (lembrando que a maioria desses empréstimos era subprime).
Agora você deve estar pensando: “Como os bancos foram tão burros e gananciosos?”
Muito simples: eles apostavam que conseguiriam se livrar desses empréstimos antes que eles deixassem de ser pagos. O ciclo era rápido: o banco comercial fazia um empréstimo subprime (LIXO), no dia seguinte um banco de investimento comprava esse empréstimo, empacotava em um MBS, mandava para uma agência de risco e, assim que conseguia a classificação AAA, já vendia para um FUNDO DE PENSÃO.
A regra era clara: não fique com a batata quente na mão. O lucro era certo, a taxa estava no bolso e o risco? Bom, o risco era de quem ficasse com a batata.
Capítulo 6. Resolveram Jogar uma Bomba ATOMICA na batata
Se você achava que não tinha como ficar pior, eu lhe digo: TEM SIM.
Nem todos os fundos podiam comprar esses MBS (alguns ainda tinham regras de segurança). Então, os bancos tiveram uma ideia: "E se vendêssemos esses títulos junto com um seguro?". Aí sim, todos podem participar da festa!
Pois bem, o nome desse seguro é Credit Default Swap (CDS). Mas deixa eu te contar um segredo sobre esse tal de CDS: diferente de um seguro de carro ou de casa, você não precisa ser dono do ativo para fazer o seguro.
E, se você for mais ousado, pode fazer 10 seguros contra o mesmo título. Agora, imagine se você pudesse fazer 10 seguros para o seu próprio carro... qual incentivo você teria para não bater com ele no poste amanhã cedo? Nenhum! Você ia querer que o desastre acontecesse logo.
E qual a sustentabilidade disso para as seguradoras? Agora você deve estar se perguntando: como as seguradoras — mais precisamente uma chamada AIG, que emitiu a maioria desses CDS — puderam ser tão cegas?
Muito simples: os títulos tinham o carimbo AAA. A AIG olhava para aquele selo e pensava: "Isso nunca vai dar problema, vou vender esses seguros e embolsar o prêmio sem nunca ter que pagar nada".
Se a festa já estava quente com 2,4 TRILHÕES DE DÓLARES em MBS, com os seguros (CDS) ela saltou para 60 TRILHÕES DE DÓLARES. Isso aconteceu porque, como eu disse, você podia comprar vários seguros para o mesmo título. Era a aposta sobre a aposta, multiplicada pelo infinito. O mercado de derivativos tinha se tornado muito maior do que o valor de todas as casas dos Estados Unidos somadas.
Capítulo 7. BOOM
Bom, você já viu que a batata estava assada, cheia de gasolina e com uma bomba atômica amarrada nela. Só faltava alguém acender o fósforo.
Em 2007, as taxas de juros nos EUA subiram e o "João" (aquele que não tinha emprego, mas tinha três casas financiadas) parou de pagar. Mas aqui está o detalhe que vai te deixar com raiva: os bancos sabiam exatamente o que estavam fazendo. Eles sabiam tanto que o produto era podre que começaram a fazer o quê? Seguros para eles mesmos. Os bancos de investimento criavam o MBS, vendiam o "lixo" para o Fundo de Pensão e, por baixo do pano, compravam montanhas de CDS (os seguros) contra os próprios títulos que tinham acabado de vender! É como se o dono de uma loja de fogos de artifício vendesse rojões defeituosos para a vizinhança e, logo em seguida, fizesse um seguro contra incêndio no bairro todo.
E não foram só os bancos. Alguns investidores muito inteligentes (e com estômago de aço) perceberam a fraude. Eles viram que o sistema era uma piada e começaram a comprar todos os CDS que podiam. Eles estavam literalmente apostando no fim do mundo financeiro.
O pânico total bateu quando o mercado travou e os bancos ficaram com "estoque" encalhado. Muitos MBS que ainda não tinham sido empurrados para os fundos ficaram presos no balanço dos bancos. O valor desses títulos AAA foram a ZERO em questão de dias.
Lembra daquela alavancagem de 30 vezes? Se você está devendo 30 vezes o que tem e 3,3% do seu estoque vai a zero, você não está apenas "quebrado" — você é um cadáver financeiro.
Quando os títulos viraram pó, os bancos e os investidores espertos foram cobrar os seguros da AIG. Eram 60 TRILHÕES DE DÓLARES em apostas. A AIG abriu a gaveta e, como você já imagina, não tinha dinheiro suficiente. O governo americano teve que escolher: ou deixava o mundo acabar, ou usava o seu dinheiro para pagar o seguro de quem causou o incêndio.
Capítulo 8. Consequências
Depois do quase colapso global, do governo americano torrar trilhões para salvar os "amigos do rei" e de milhões de pessoas perderem suas casas e suas pensões, você deve estar pensando: "Bom, estamos falando dos ESTADOS UNIDOS, sem dúvida os culpados devem estar apodrecendo na cadeia certo?”
Errado.
Na verdade, o final dessa história parece mais um roteiro de comédia ácida. Sabe quantos grandes executivos de Wall Street foram para a cadeia pelo colapso de 2008? ZERO. Quer dizer, teve um executivo da Credit Suisse que foi preso, mas o resto da turma? Recebeu um GORDO E DELICIOSO BONUS.
A lógica é de cair o queixo: os bancos alegaram que não "mentiram", eles apenas "erraram" nos seus modelos matemáticos. E, como todo mundo sabe (ou deveria saber), ter um modelo matemático burro não é crime. Eles disseram aos juízes: "Nós acreditávamos piamente que o lixo era picanha, as agências de risco também acreditavam, então foi apenas um equívoco coletivo de trilhões de dólares. Não é culpa nossa.
Enquanto o cidadão comum perdia o emprego e suas aposentadorias, os bancos que foram salvos pelo seu dinheiro usaram parte desse "resgate" para pagar... bônus para os próprios diretores. Afinal, segurar o mundo à beira do abismo cansa muito, sabe? Eles precisavam de férias em Hamptons para desestressar.
As agências de risco? Continuam aí, firmes e fortes, dando notas para todo tipo de papel por aí. A AIG? Foi salva, fatiada e segue o jogo. O sistema? Esse ai segue mais firme e mais forte do que nunca...



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